2_1.jpg

DAVID, VOCÊ É UM IRONMAN!

Cápitulo 4

Assim que chegamos à cidade, entrei no clima da prova. Não era para menos – a estrutura montada para apoiar os participantes era incrível e perfeita, e havia uma grande quantidade de atletas ali, todos dividindo os mesmos anseios e propósitos que eu. A energia gerada por toda essa preparação para a competição era quase palpável. Senti muito orgulho de estar no meio deles, contaminado pelo alto astral geral muito positivo.


Sou consciente de que disputar um Ironman full não é desafio para qualquer um. Cada uma daquelas pessoas havia feito um grande esforço para estar ali, para viver o momento mágico que antecede a prova, quando a ansiedade e o nervosismo de alguma forma são compartilhados por todos. Eu me senti como meus filhos, dois meses antes, quando chegaram à Disney: eufórico.


Apesar de ser um esporte individual e competitivo, para a maioria dos participantes, o simples fato de completar o percurso é tão importante quanto alcançar os primeiros lugares. Por isso, ninguém é adversário de ninguém. Todos se ajudam para conquistar o objetivo de cruzar a linha de chegada.

Fiquei bem animado quando fui retirar o kit de competição, com os acessórios obrigatórios: chip de cronometragem, touca de natação e adesivos com a numeração para identificação dos materiais e da bicicleta. Também havia tatuagens para colocar no corpo e sacolas para que os atletas deixassem medicamentos e alimentos de que porventura fossem precisar durante os percursos de ciclismo e corrida, além de uma série de brindes dos patrocinadores. Era como uma grande festa que antecede momentos difíceis, na qual a capacidade de superação seria posta à prova. Uma das coisas que sempre me emociona é a solidariedade nesses momentos pré-competição. 


Apesar da grande motivação e da alegria de estar ali, minha cabeça teimava em doer, e meu corpo, em alguns momentos, implorava por descanso. Depois de pegar minha bicicleta com a equipe que a transportara de São Paulo, fui pedalando para o hotel a fim de verificar se estava tudo certo e ainda fazer os últimos ajustes. No quarto, resolvi respeitar minhas limitações: deitei-me na cama e fiquei quieto por várias horas. Só sai à noite, para jantar. Mais de uma vez, ao me ver derrubado, Thais me fez jurar que eu pararia se sentisse alguma coisa estranha durante a competição. Além dessa preocupação dela, precisei responder a uma quantidade incontável de mensagens de meus pais e meu irmão perguntando como eu me sentia. Eu só tinha um pensamento: estava feliz, apesar de o corpo não concordar comigo. 


Acordei no dia seguinte, o sábado anterior à prova, sentindo-me bem melhor. Tomei um belo café da manhã e aproveitei que o mar estava calmo para fazer um reconhecimento do percurso de natação. Entrei na água ainda um pouco ressentido do mal-estar do dia anterior, mas tudo passou quando comecei a girar os braços e me distanciar da orla. Nadei cerca de 1.500 metros – menos da metade do que faria no dia seguinte – em um ritmo bom e sem sentir nenhum tipo de dor ou problema. Saí da água, deitei-me na areia para esperar que o sol me secasse e aproveitei para me convencer de uma vez por todas de que estava preparado. Imaginei que todos os incômodos que vinha sentindo podiam ser psicológicos, como um temor de não conseguir terminar a prova, por exemplo, e que desapareceriam assim que fosse dada a largada.


Almocei, encontrei o treinador para os últimos ajustes da estratégia da prova e voltei ao hotel para o descanso final. Na conversa, ele disse que eu deveria fazer uma natação conservadora, uma vez que essa era minha modalidade principal e a mais forte. Pediu que eu saísse na frente e me posicionasse logo atrás do primeiro colocado, assim aproveitaria o “vácuo” criado por ele e não desgastaria muito meus músculos. Eu não deveria ficar na frente, ainda que quisesse. Na bicicleta, a ideia era manter um ritmo “agradável” de 30 quilômetros por hora e prestar atenção ao relógio para os momentos de nutrição e hidratação. Deveria comer a cada 40 minutos, pelo menos. E a corrida seria no ritmo do treino, sempre com atenção à hidratação e à postura do corpo. Tudo parecia fácil. Aliás, seria, caso eu não estivesse acometido por “algo” que eu ainda não fazia ideia do que poderia ser e que não me deixava relaxar por completo.


Apesar da animação, precisei tomar um remédio para diminuir a dor de cabeça, que persistia. Para falar a verdade, àquela altura, já havia até me esquecido do problema com o baço. Aproveitei para me esbaldar no delicioso jantar de massas que o pessoal do hotel preparara para os atletas e fui me deitar. Em algumas horas, estaria na largada para a prova definitiva.